Farfalhar

Nada naquela noite parecia ocupar o próprio lugar. Havia um deslocamento sutil, difícil de nomear, como se o mundo estivesse um tom acima do necessário. Um desses espaços em que o conforto chega antes mesmo do desejo. Ainda assim, havia um desalinho discreto, quase imperceptível, como quando o corpo está presente, mas a atenção insiste em repousar em outro ponto do mundo.

Naquela noite, o frio não era cenário. Era acontecimento. Bastou descer alguns degraus para que o vento atravessasse a roupa com violência suficiente para reorganizar o ar e os pensamentos. As árvores respondiam a esse movimento com um rumor contínuo. As folhas se chocavam, giravam, recuavam, como se conversassem entre si numa língua antiga, impossível de decifrar, mas claramente viva.

Acima de tudo, a lua. Brilhantíssima. Excessiva. Não iluminava de maneira suave; ocupava o céu. Parecia observar, não como quem vigia, mas como quem existe há tempo demais para se importar. Sob aquela claridade quase dura, nada parecia neutro. O chão, as árvores, o vento, tudo ganhava contorno demais, presença demais.

O tempo passou a ser medido em pequenos intervalos. O acender e o apagar de instantes breves. O vapor da respiração visível no ar. O frio insistente, que não cedia. A sensação era semelhante à de se estar diante de algo vasto demais para ser domesticado. Como o mar sob a lua cheia: capaz de acolher, mas também de intimidar. Não por ameaça, mas por grandeza.

Os pensamentos não se organizavam em narrativas completas. Eram fragmentos. Atmosferas. A lembrança de um silêncio compartilhado, da proximidade que não exige fala, da presença que não precisa se explicar. Certas memórias não se apresentam como lembrança. Elas surgem como clima, como vento constante, impossível de ignorar.

As árvores continuavam a se mover sem pausa, curvando-se, resistindo e cedendo ao mesmo tempo. O vento parecia testá-las, e elas respondiam apenas existindo, balançando sem se partir. A lua permanecia ali, absoluta, como se aquela cena se repetisse há séculos, sempre para alguém diferente, sempre com o mesmo peso.

Quando o corpo finalmente pediu retorno, subir os degraus não significou exatamente voltar. Foi apenas aceitar que alguns instantes não pedem solução. Eles existem para revelar. Para mostrar que, mesmo cercado de movimento e gente, há noites em que se fica diante de algo amplo demais para ser preenchido.

No dia seguinte, tudo seguiria seu curso normal. Mas aquela noite permaneceria. Não como uma lembrança organizada, e sim como permanecem certas forças da natureza: silenciosas, contínuas, impossíveis de explicar por completo.

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