Havia um viajante que, numa noite alta demais, foi levado a um edifício construído acima das nuvens.
Lá em cima, o vento falava alto, as luzes confundiam os sentidos e a distância entre o chão e o céu parecia pequena demais para quem levava no peito um cansaço antigo.
Ele acreditava ter falhado naquilo que mais desejou proteger.
Achava que lhe faltaram mãos, força, linguagem.
Achava que, se tivesse sido mais inteiro, nada teria se quebrado.
O parapeito estava frio.
E o vazio, silencioso demais.
Mas quando o viajante se aproximou do limite, algo inesperado aconteceu:
o mundo respondeu.
Não com respostas prontas,
não com julgamentos,
mas com presença.
Quando já não havia reservas, o mundo encontrou meios de sustentar.
Quando tudo dentro era ruído, o caos cedeu lugar a um ritmo.
E quando o silêncio ameaçou pesar demais, ele passou a ter densidade.
Nenhuma dessas forças tentou empurrá-lo de volta para o compasso.
Elas apenas permaneceram.
E o viajante entendeu, ali, algo que não se aprende nos livros:
há momentos em que viver não é ser forte,
é permitir ser sustentado.
O edifício continuou alto.
A dor não desapareceu naquela noite.
Mas o viajante se afastou do limite.
Não porque tudo estava resolvido,
mas porque algo essencial lhe foi lembrado:
— Ele ainda estava ali.
— E isso importava.

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