O espelho do salgueiro

O salgueiro no lago.

Há muito tempo, no centro de uma clareira esquecida, nasceu um salgueiro de galhos longos e trêmulos. Ele não cresceu rápido, nem alto. Mas tinha uma raiz rara: uma que pulsava com o vento.

Certo dia, quando a névoa se dissipava pela manhã, algo se moveu no lago ao lado. Não era bicho, nem folha caída. Era uma figura de água e luz — uma espécie de reflexo que não vinha do céu. O salgueiro, que nunca havia se visto fora de si, ficou encantado com aquilo. Não sabia se era uma miragem, um sussurro da floresta ou um segredo do tempo. Mas toda vez que o lago se agitava com as brisas suaves, a figura aparecia.

Ela não tinha forma exata — ora parecia um cervo de olhos antigos, ora uma coroa de vento. Mas havia algo nela que fazia o salgueiro estremecer até a ponta das raízes. Sempre que a figura surgia, a seiva corria mais viva, os galhos tremiam de contentamento.

Com o passar das estações, o salgueiro passou a se curvar mais e mais sobre o lago, tentando tocar aquela presença fluida. Mas quanto mais se inclinava, mais notava: a imagem desaparecia com os mínimos movimentos. Para vê-la, era preciso calma, silêncio e certa entrega ao mistério.

Um dia, sem tempestade ou aviso, o lago parou de refletir. O salgueiro se viu sozinho com seu próprio contorno, e a figura nunca mais voltou. O vento seguia soprando, o sol ainda nascia, mas havia um vazio entre as folhas que nenhum pássaro conseguia preencher.

Ainda assim, o salgueiro permaneceu ali. Mesmo sentindo a ausência, mesmo tendo aprendido que não podia forçar o reflexo a voltar. Ele sabia que algumas águas só mostram o que são quando o coração está quieto, e que certos encontros servem para ensinar como dobrar os galhos sem quebrar a alma.

Às vezes, ao cair da tarde, o lago brilha de um jeito diferente. O salgueiro não se inclina como antes. Mas dentro de si, em alguma seiva profunda, ele guarda o movimento de um reflexo que um dia o fez sentir — e isso, por si só, já é memória viva.

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