A Raposa e o Veado

Pertinho daquele Salgueiro, havia uma floresta onde o tempo se movia em espirais, não em linhas. Lá vivia uma raposa de pelos cor de cobre e perfume de lavanda. Seu passo era leve, e seu rastro deixava o ar mais calmo. Ela via beleza nos ruídos, e mistério no que não podia ser explicado.

Um dia, quando o orvalho ainda dançava sobre as folhas, ela cruzou com um veado que emergia da névoa. Seu corpo parecia feito de silêncio. Caminhava como se ouvisse um chamado que não vinha de fora, mas do próprio solo.

A raposa, intrigada, decidiu segui-lo.

Durante muitas voltas do sol, os dois cruzaram trilhas, arroios, clareiras cobertas de musgo. Nunca falaram sobre o que faziam ali. Apenas estavam. A floresta, por um tempo, parecia ter parado de crescer, só para ouvi-los passar.

O veado andava com precisão. A raposa, com liberdade. Ela dançava entre sombras. Ele observava o céu em busca de padrões que só ele parecia ver. Ainda assim, seus passos pareciam se ajustar, como se seus ritmos, embora distintos, soubessem coexistir.

Mas então, sem qualquer som, uma antiga estação despertou.

Não era outono, nem inverno. Era algo mais antigo — um tempo que fazia as árvores se curvarem e o céu perder a cor. Chamavam-no de o “Silêncio Fundo”, e dizia-se que, quando ele chegava, cada criatura da floresta era chamada de volta ao seu princípio.

O veado começou a desaparecer entre as brumas mais espessas. Não por escolha, mas por natureza. A raposa tentou segui-lo, mas a lavanda em seus pelos começava a sumir, tomada por umidade pesada. Seus olhos, antes atentos ao outro, voltaram-se ao chão. Ela entendia.

Naquele tempo estranho, os caminhos não se dividiam — apenas se desfaziam.

Quando a névoa voltou a clarear, havia apenas pegadas fundas no barro, e um eco leve no ar. A raposa continuou andando, mas agora não deixava mais rastros. E o veado, dizem, se tornou parte do nevoeiro.

E assim seguiu a floresta: sem rupturas, sem avisos — só ciclos. E dois seres que se encontraram, tocaram e depois, como tudo ali, voltaram a ser parte do invisível.

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