A Libra de Ouro

O nome da cidade era Nébula Azul.

Era uma cidadezinha de cais, cercada pelas águas profundas da Baía dos Vagantes. Ali, as embarcações chegavam carregadas de especiarias, tecidos, pedras e objetos de procedência duvidosa. Havia quem dissesse que certas mercadorias vinham de lugares que sequer existiam nos mapas, da borda do mundo.

Naquela cidade vivia alguém que, até hoje, ninguém soube definir muito bem.

Às vezes era firme. Em outras, faltava-lhe plenitude. Tinha uma natureza andrógina e conhecia a própria essência, embora frequentemente se entristecesse quando aqueles que lhe eram próximos pareciam esquecê-la.

Possuía um nome, mas, por alguma razão, permitia que o esquecessem.

Certa vez, uma bela senhora de vestes púrpuras, cuja presença fazia silenciar até os mercadores mais barulhentos, confiou-lhe uma tarefa: conferir os pesos e as medidas de tudo o que chegava ao mercado do cais.

Para isso, entregou-lhe uma balança de ouro.

Não explicou de onde viera o instrumento, tampouco por que o escolhera para guardá-lo.

Era um trabalho simples, embora exigisse atenção. Um quilo deveria pesar um quilo, um metro deveria medir um metro, e ninguém deveria pagar por aquilo que não recebesse.

Durante muito tempo, o homem sem nome exerceu seu ofício sem grandes dificuldades.

Até que, certa feira, descobriu que a Libra de Ouro estava errada.

Não era um defeito evidente. A diferença era pequena, quase insignificante. Mas suficiente para que algumas mercadorias parecessem mais pesadas ou mais leves do que realmente eram.

Mandou consertá-la.

O artesão examinou as peças, substituiu um dos mecanismos e garantiu que tudo estava em ordem. Antes de devolver o instrumento, porém, fez uma pergunta:

— Por que se importa tanto com esta balança?

O homem sem nome contemplou o ouro envelhecido, as marcas delicadas nas extremidades e o pequeno ponteiro que repousava imóvel.

Não respondeu.

Apenas recolheu a balança e voltou ao cais.

No primeiro dia, conferiu os pesos duas vezes. No segundo, três. Na semana seguinte, passou a comparar os resultados.

Logo percebeu que gastava mais tempo verificando as balanças do que pesando as mercadorias.

Certa tarde, cansado das conferências, cometeu um erro. Registrou uma medida incorreta e prejudicou um comerciante.

O comerciante exigiu explicações.

E tinha razão.

O homem reconheceu o equívoco, corrigiu o registro e se ofereceu para reparar o prejuízo.

Mas, enquanto discutiam o erro, percebeu algo curioso: ninguém parecia interessado em saber por que ele já não conseguia trabalhar sem conferir cada resultado tantas vezes.

Isso não diminuía sua responsabilidade. Apenas explicava o cansaço que havia se instalado naquele ofício.

Na manhã seguinte, antes que a névoa abandonasse os telhados de Nébula Azul, abriu o mercado como de costume.

Colocou um pequeno peso sobre a Libra de Ouro.

O ponteiro se moveu, oscilou por alguns instantes e parou exatamente onde deveria.

O homem ficou olhando.

Retirou o peso e repetiu o procedimento.

O resultado foi idêntico.

Fez isso mais uma vez.

E outra.

Até que a velha púrpura, que o observava da entrada do mercado, perguntou:

— Por que você não respira enquanto mede sempre a mesma coisa?

O homem demorou a responder.

— Porque não sei mais quando ela vai desregular.

Ela se aproximou com seus lindos cor de fogo. Olhou para a balança, depois para o homem.

— Mas então o senhor está medindo o peso ou procurando uma certeza?

O homem não respondeu.

Do lado de fora, os sinos do cais anunciaram a chegada de uma embarcação. O mercado começava a despertar, e a Baía dos Vagantes refletia os primeiros tons dourados da manhã.

Naquele dia, ele respirou.

Antes de partir, voltou-se para a senhora.

— Esta é a minha balança — disse, passando os dedos pelas marcas do ouro.

O menino observou o instrumento por alguns instantes.

— Talvez ela nunca mais erre — respondeu. — Mas não é ela quem precisa acreditar nisso.

O homem permaneceu em silêncio.

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