Eu assisti a Odisseia duas vezes.
Nunca li a epopeia e, talvez por isso, o impacto tenha sido tão forte em mim.
Teve uma parte do filme que me transpassou a alma: a resposta de Odisseu quando um dos tripulantes perguntou como era o canto das sereias.
“Era tudo aquilo que você um dia quis ser e, depois, tudo aquilo que passou a desejar nunca ter desejado. Era como uma coceira deliciosa: você quer se coçar, mas percebe que ela está por baixo da pele, num lugar que não consegue alcançar. Então, o que parecia prazeroso se torna insuportável. O canto dizia que aquilo que você mais deseja é justamente o que não pode ter e que aquilo que mais deseja, mas não pode ter, é o que um dia já teve e perdeu.”
Quando ouvi essa fala pela primeira vez, embalado pela trama e pela música, tive a impressão de que ela era uma reflexão sobre desejar intensamente aquilo que nunca tivemos.
Mas basta ouvi-la com um pouco mais de carinho para perceber que ela vai além.
Ela fala sobre um desejo ainda mais difícil de carregar: querer de volta aquilo que um dia fez parte da nossa vida.
E isso me fez pensar em como a memória é curiosa. Talvez ela seja o próprio canto das sereias.
A gente costuma dizer que sente falta de algo, de alguém, de um lugar ou de uma fase da vida. Mas será que é só isso?
Pensando melhor, acho que existe também a falta da pessoa que éramos quando aquilo existia.
Porque perder um estado de vida que você lutou para conquistar não significa perder apenas um momento. Significa perder também uma versão de si mesmo — uma versão que só existia naquela história.
Na verdade, me corrijo.
Talvez esse seja o verdadeiro canto das sereias.
Não a promessa de riqueza, poder ou glória.
Mas o doce e excruciante sussurro de querer recuperar aquilo que a vida levou.
E talvez a principal lição daquela cena seja justamente essa: todos nós vamos ouvir o canto das sereias em algum momento da vida.
O desafio não é fingir que ele não existe.
É continuar remando, mesmo depois de ouvi-lo.

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