Havia um faroleiro conhecido por nunca permitir que a luz falhasse.
Todas as noites, antes do pôr do sol, ele percorria a escada em espiral, limpava cada vidro, verificava o óleo e ajustava o pavio com uma precisão quase exagerada. Dizia que um pequeno descuido era suficiente para perder embarcações inteiras.
Quem navegava por perto admirava aquele cuidado.
Com o tempo, o faroleiro passou a ensinar aos marinheiros como reconhecer uma luz firme. Explicava que uma chama sincera não vacila ao primeiro vento e que, quando a claridade parece estranha, é prudente desconfiar.
Os marinheiros passaram a olhar o próprio lampião com mais rigor. Conferiam a chama duas vezes. Depois três. Alguns chegavam a trocar o pavio por medo de não estarem iluminando o suficiente.
Até que, numa madrugada muito calma, sem tempestade alguma, descobriram que a única luz que havia desaparecido era justamente a do farol.
Ninguém soube explicar quando ela se apagou.
Nem por quê.
Na manhã seguinte, o faroleiro acendeu a lanterna outra vez.
E ela realmente voltou a iluminar.
Mas alguns marinheiros perceberam que havia uma diferença difícil de explicar.
Eles continuavam enxergando a luz.
Só já não conseguiam navegar olhando apenas para ela.

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