Vinte e três horas e vinte minutos.
Acabei de chegar em casa e me ocorreu que, às vezes, a gente pensa porque quer; às vezes, porque é forçado.

Platão, no Teeteto, discute algo muito interessante: pensar seria, de certo modo, um diálogo da alma consigo mesma. (Essa lembrança que tenho da filosofia talvez não esteja perfeita, mas a ideia central me marcou.) Na maior parte do tempo, por causa do excesso de informações e da correria do dia a dia, a gente não chega a pensar de verdade — a gente apenas tem pensamentos.

Eles surgem, passam, se atropelam. Somos muito distraídos pelos barulhos que um celular pode trazer.

Hoje eu fui jogar vôlei e, depois do jogo, fomos comer um lanche.
Meu celular descarregou enquanto estávamos na lanchonete. Na hora de irmos embora, pedi para uma amiga chamar meu Uber.

Entrei no carro e, diferentemente do que faço sempre, não mexi no celular — simplesmente porque ele estava descarregado.

Silêncio.

Silêncio e muitos pensamentos, como sempre.

Mas, em momentos assim, acontece algo curioso: a gente deixa de apenas ter pensamentos e começa, de fato, a pensar.

Mesmo acompanhado pelo motorista, eu estava só.

E foi então que comecei a observar o caminho de volta para casa.

A chuva começou a cair e, parado embaixo de um semáforo, vi as gotas dançando no para-brisa do carro. A luz vermelha mudou para verde e as cores se misturaram às gotas que pintavam o vidro.

Tudo aquilo trouxe uma sensação difícil de explicar:
melancolia, pensamentos intensos e chuva.

Se você que está lendo isso é um pouco mais velho — ou gosta de músicas mais antigas — talvez entenda a referência a seguir:

“In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone ‘Neath the halo of a streetlamp I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence”

Em português, para a referência ficar mais clara:

“Em sonhos atormentados, eu caminhei sozinho
Ruas estreitas de paralelepípedos
Sob a luz de um poste de rua
Levantei minha gola contra o frio e a umidade
Quando meus olhos foram apunhalados pelo brilho de uma luz de neon Que partiu a noite
E tocou o som do silêncio”

Essa música tem tantas camadas, mas o que me veio à mente foi o sentimento de solidão. Parece dramático, né? Mas aqui dá para olhar para a palavra pelo seu significado, e não pelo peso que ela costuma carregar.

E então pensei: esse momento, em que “tocou o som do silêncio”, talvez seja justamente um convite para ouvir apenas os próprios pensamentos — e eles, por si só, já fazem bastante barulho.

Tudo isso só para dizer que talvez seja bom, às vezes, não esperar o celular descarregar — e simplesmente se conectar com as experiências sensoriais da vida fora das telas. Para mim isso é difícil, mas hoje me fez pensar.

E quanto à música, caso ainda não tenha ouvido, vale a pena conhecer.
Procura aí: “The Sound of Silence”, de Simon & Garfunkel.

Um abraço.

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