Eu tenho um diário à moda antiga, daqueles que você escreve à mão, daqueles que eram moda entre os adolescentes das décadas de 1980 e 1990. Estava relendo algumas páginas e encontrei um desabafo registrado há quase oito anos, no dia 16/02/2018.

Pelo teor do texto, você verá que se trata de um relato de angústia e procura — um anseio da alma por plenitude.

O texto não é meu, mas ele parecia retratar cada parte do meu sentir, o qual muitas vezes eu não sou capaz de definir, mas facilmente consigo identificar. Talvez por isso, muitas vezes, encontremos descanso em alguns textos ou músicas que foram escritos por pessoas que, assim como nós, passaram por algum momento de dor ou de anseio.

Confira:

“Quando eu estiver unido a ti com todo o meu ser, não mais sentirei dor ou cansaço. Minha vida será verdadeiramente vida, toda plena de ti. Alivias aquelas a quem plenamente satisfazes.

Não estando ainda repleto de ti, sou um peso para mim mesmo. Minhas alegrias que deveriam ser choradas contrastam em mim com as tristezas que deveriam causar-me júbilo, e ignoro de que lado está a vitória. Pobres tristezas que vencem em mim, contra as verdadeiras alegrias, e não sei quem vencerá.

Ai de mim! ‘Tem piedade de mim, Senhor!’ Ai de mim! Vês que não escondo as minhas chagas. Tu és o médico, eu sou o enfermo. Tu és misericordioso, e eu sou miserável.

Não é uma tentação a vida do homem sobre a terra? Quem deseja trabalhos e dificuldades? Ordenas aos homens que as suportem, e não que as amem. Ninguém ama aquilo que tolera, ainda que ame suportá-lo; mesmo que se regozije em tolerar, prefere não ter o que suportar.

Na adversidade desejo a prosperidade, e na prosperidade temo a adversidade. Flutuo entre esses dois extremos: existe um estado intermediário onde a vida humana não seja uma tentação?

Execráveis as prosperidades do mundo, duas vezes execráveis: seja pelo temor da adversidade, seja pela corrupção da alegria. Amargas adversidades deste mundo, uma ou duas e três vezes amargas, por causa do desejo da prosperidade, pela dureza da adversidade e pelo medo de que esta vença nossa capacidade de suportá-la!

Quem poderá negar que a vida humana sobre a terra seja uma tentação sem tréguas?”

Já conhecia este texto? É de Santo Agostinho de Hipona, filósofo da Antiguidade Tardia. A citação foi escrita entre 397 e 400 d.C.

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