A imaginação é uma das ferramentas mais poderosas que nós possuímos para lidar com a vida, independentemente da situação: boa ou ruim, simples ou complexa, calmante ou desesperadora. Quem imagina e faz o esforço de olhar para as possibilidades está um passo à frente. E não um passo à frente em relação aos outros, mas em relação a si mesmo, no próprio processo de cura, vivência ou elaboração.
Neste momento, há um contraste diante de mim: à esquerda, um céu aberto, com algumas nuvens alvas e distantes; à direita, nuvens densas, pesadas e nubladas. Agora faz 28º, mas com sensação térmica menor — pelo menos para quem está acostumado com 31º à noite. Eu estava assistindo Harry Potter e o Enigma do Príncipe Mestiço quando cheguei à cena da primeira aula de poções do professor Horácio, em que ele apresenta as poções Amortentia e Felix Felicis.
Foi nesse instante que pausei o filme, pulei para a mesa ao lado, abri o computador e comecei a escrever. O primeiro pensamento que me assaltou foi: já pensou se realmente pudéssemos fabricar “sorte líquida”? Imagine tomar uma poção rara e poderosa, capaz de te conceder sucesso em tudo aquilo que você se propõe a fazer.
Acho que aqui o ponto transita entre a famosa ânsia de ter e o tédio de possuir. Nós sempre queremos mais, de fato — ou talvez estejamos colocando energia demais nas expectativas que criamos. Ouvi dizer que grande parte da dor humana se concentra justamente nos planos que fizemos, nas expectativas que alimentamos e na impossibilidade de realizá-las. Só nisso já temos bastante insumo para terapia, não é?
Contudo, ao mesmo tempo em que a imaginação nos faz voar, ela precisa servir como combustível para uma vivência mais leve — e não como um convite para habitar um mundo avesso à realidade. Como disse Dumbledore (no terceiro livro, ou no primeiro, não lembro bem):
“não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver.”
E talvez seja por isso que a realidade nos ofereça pequenas doses de Felix Felicis: na caminhada que você faz, na música que escolhe ouvir, no treino que você não queria fazer, mas sabe que pode te ajudar. Pequenas sortes líquidas, silenciosas, que não mudam tudo de uma vez — mas sustentam o caminho.

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