Inconsciência

Todas as vezes que estou em um lugar muito alto, como na cobertura de um prédio ou viajando de avião, e olho para baixo, além de sentir um frio gigante na barriga, eu inevitavelmente penso sobre a minha pequenez e insignificância dentro do cosmos. É aquela mesma reflexão do Pálido Ponto Azul, mas sustentada por um referencial de extensão menor.

E aqui, um parêntese: quando tive um breve passeio pela Filosofia, aprendi que podemos compreender as coisas por meio de sua Extensão e Compreensão. A Extensão pode ser entendida como o conjunto de objetos, casos ou instâncias aos quais um conceito se aplica; já a Compreensão (ou intenção) é o conjunto de características, propriedades ou notas que definem esse mesmo conceito.

Para trazer um exemplo, ver a Terra de uma base espacial mobiliza uma extensão ampla, quase cósmica, onde o planeta aparece como um todo frágil suspenso no vazio. Já a observação a partir de um avião revela apenas partes do mundo, como cidades e paisagens.

Fechando parênteses: a reflexão é semelhante, mas sustentada por uma extensão menor, mais sensorial, ligada a um referencial mais próximo.

A experiência sensorial de estar sobre as nuvens ou contemplando uma paisagem bonita me faz relembrar como a vida é rápida e o quanto, muitas vezes — a maioria das vezes, na verdade — eu só enxergo um recorte da realidade, e sob determinada perspectiva. E mais: enquanto passo por esse estado, tomo consciência da minha inconsciência. Quantas vidas, quantas pessoas das quais eu não faço ideia de quem sejam, quantas histórias e sonhos. Acho que a primeira vez que tive um pensamento assim foi quando fui a Fortaleza, mais de 15 anos atrás, observando aquele conglomerado de casas com telhas de barro marrons, como parecia ser típico daquela região.

Imaginar a imensidão de probabilidades, de pessoas rindo e chorando, brigando e se reconciliando, dormindo, jogando, lendo, transando… a vida acontecendo — acelerada para uns, lenta para outros. Enfim, uma reflexão que honestamente eu não sei para que serve, mas que assaltou — e ainda assalta — a minha mente de uma forma que não consigo explicar.

Minha avó falava que conheceu um homem que, de tanto pensar, ficou louco. Não sei qual é a real probabilidade disso acontecer, mas eu escrevo por isso: por alívio, por fuga e para descarregar.

Tudo isso, caro leitor(a), para trazer uma verdade óbvia e por muitos esquecida: a gente não sabe um terço da vida e das coisas que acontecem. Por isso, seja gentil com as pessoas que cruzarem seu caminho. Todo mundo cruza nossos caminhos por algum motivo, o qual nem sempre conseguimos entender de pronto. Até luzes que parecem errantes não se chocam com órbitas à toa.

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