Hoje eu fui me encontrar com duas amigas. Fomos comer comida japonesa e conversar sobre nossas vidas, como sempre fazemos.
Nesta época do ano — o que antes era chamado de horário de verão — demora mais para anoitecer. Era por volta de dezenove horas e vinte e três minutos, e o dia ainda estava claro, mas já anunciava o crepúsculo.
Eu moro próximo à pista, que é a maneira como nós chamamos a rodovia por aqui, e, para acessá-la, há uma ligeira descida. Nesta descida, pode-se muito bem trabalhar o conceito de perspectiva: do lado direito, um antigo parque aquático abandonado, em ruínas; do esquerdo, vastas pastagens com vacas e uma vista deslumbrante do horizonte. E é neste ponto que quero chegar. Não nas vacas, na vista.
Ao sair de casa, entrei no Uber, e o motorista, já idoso — e de poucas palavras, ainda bem —, estava ouvindo uma ópera muito agradável. Alguns minutos depois de sair de casa, ao chegar nessa descida que dá para a pista, o céu ligeiramente avermelhado parecia fazer parte da ópera ouvida dentro do carro. Ou melhor, a ópera parecia fazer um ode à beleza do céu.
Naquele momento, eu tive o que posso chamar de consciência da beleza repentina do rio cujas águas passam ali, sempre em movimento, sempre acontecendo apenas uma vez: aquela sucessão de fatos tão ordinários culminou naquela vista exageradamente linda e simples ao mesmo tempo.
Houve uma deliciosa eternidade entre a descida, a harmonia da música e a exuberância do céu vermelho-alaranjado, do jeito que o Peeta ama. Foram segundos de catarse. Não havia ansiedade ou dores no peito.
Eternidade rápida, paradoxal, de alguns segundos. Um daqueles raros momentos em que o meu coração se enche de gratidão por estar vivo e pulsante. Algo que não se quer sentir, mas se sente mesmo sem querer.
É sempre mais lindo antes do anoitecer. E é sempre mais escuro antes do amanhecer. Isso é óbvio? Talvez seja, mas queira interpretar como uma metáfora e veja os horizontes se ampliarem.


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