A gente vai ficando mais velho e começa a prestar atenção em outras coisas e deixa antigos hábitos de lado, não é? Para mim, antes, a música era apenas música: sons coordenados — ou nem tanto — e harmoniosos que podiam me agradar ou não.
Hoje, com trinta anos nas costas, a música é muito mais profunda e acessa canais antes inatingíveis. Se antes eu ouvia apenas pelo som, hoje eu ouço pelo som, pela letra, pela identificação e pela sensação que ela me causa: é justamente isso que estou pensando e sentindo, mas que jamais seria capaz de explicar e definir.
Passei a entender que cantores e compositores têm uma coragem inaudita e atroz. Eles são capazes de dissecar a dor excruciante que estão sentindo, esmiuçar suas ansiedades ou compartilhar as suas alegrias e, mais: nos fazer sentir o mesmo sentimento por meio da empatia, da identificação e do momento da vida que nós estamos atravessando.
Uma mulher com a qual trabalhava numa clínica de radiologia sempre dizia: nada é fixo, nada é permanente. Essa frase, por si só, já rende uma discussão filosófica muito acalorada, mas o fato é que ela define muito bem o meu gosto musical: depende do dia, do clima, dos sentimentos e do momento da vida. E essa é a magia da arte: tem de tudo para quem quer tudo e tem o essencial para quem não quer nada.
Escrevo isso num domingo nublado, com vento forte, farfalhar violento das folhas e chuva iminente, enquanto ouvia Sealed With a Kiss, na versão de Bobby Viton (1935–2025).
Música diverte. Revela. Manifesta.
Música cura.


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